Trilhas, mergulhos e descobertas no Interior da Bahia



A Chapada Diamantina integra o grande maciço do Espinhaço, que se estende de Minas Gerais ao norte da Bahia, com altitudes entre 800 e 1.700 metros. Seus paredões lembram muralhas naturais e, entre vales e áreas planas, há grande concentração de recursos hídricos. Essa abundância de água torna a região propícia para diversos tipos de cultivo, como café, soja e frutas. Com apoio técnico adequado, o solo pode gerar alimentos e riqueza de forma sustentável. Na região vivem cerca de 360 mil pessoas, metade em áreas rurais.



A agricultura familiar é valorizada, mas também existem grandes plantações, que exigem cuidados ambientais. Técnicas como a agricultura biodinâmica têm apresentado bons resultados, inclusive na produção de cafés de alta qualidade destinados ao mercado internacional. A altitude amena facilita o cultivo, mas é o Rio Paraguaçu que garante o abastecimento hídrico da região. Seu represamento formou um dos maiores lagos artificiais da Bahia, a Barragem do Apertado, responsável por abastecer o perímetro irrigado.



O visual da barragem é imponente, com canais que distribuem água entre as fazendas. A irrigação moderna cria círculos característicos nas plantações de soja, resultado de sistemas que giram em torno de um eixo central. Deixando a agricultura e seguindo para o lazer, a Chapada abriga alguns dos melhores pontos de mergulho do país. No trajeto até eles, encontra-se Campos de São João, um pequeno vilarejo de clima ameno e desenvolvimento turístico crescente, favorecido por sua localização próxima a belas formações naturais.



A Bahia possui o maior sistema de águas subterrâneas do Brasil e um dos maiores do mundo, o que explica a quantidade de grutas catalogadas na região. A Gruta do Rio Pratinha é um dos locais mais visitados, conhecida pela transparência da água e pela mistura de tons verdes, azuis e prateados proporcionada pelo calcário do fundo. A gruta se conecta ao rio Pratinha, que se assemelha a uma piscina natural. Há também áreas ideais para mergulho técnico, que exige certificação específica.



A poucos quilômetros dali está a Gruta dos Impossíveis, uma formação profunda e de grande diâmetro que impressiona pela aparência desafiadora. O local recebeu esse nome devido às dificuldades iniciais de acesso, hoje amenizadas por uma pequena escada metálica. A região abriga inúmeras outras grutas, oferecendo múltiplas oportunidades de aventura.



Além das cavernas, a Chapada Diamantina se destaca por seus vales, chapadões, quedas-d’água e esculturas naturais. A área tornou-se um dos principais destinos brasileiros de ecoturismo, combinando descanso, aventura e história. Mesmo com infraestrutura ainda desigual, muitas cidades da região têm se desenvolvido para receber visitantes. Seabra, com cerca de 50 mil habitantes, oferece boa estrutura e preserva parte de seu casario histórico. Antiga rota do ciclo do diamante, a cidade recebeu impulso econômico após a construção da BR-242, mantendo tradições como as festas juninas. Próximo à zona urbana corre o rio Cochó, que abastece o município.



Seguindo pela Serra dos Três Morros, o cenário revela o vasto interior baiano. O helicóptero permite observar detalhes do relevo, mostrando formações que permanecem praticamente intocadas. Uma exceção é a presença ocasional de trilhas e estradas de terra, evidência da chegada humana.



Piatã, uma cidade com cerca de 20 mil habitantes e clima de altitude, é um exemplo de ocupação harmoniosa. O município preserva sua arquitetura antiga e está situado aos pés da Serra da Tromba, uma formação em “V” que se estende por quase 30 quilômetros, com picos de até 1.600 metros. A área conhecida como Gerais, entre as duas cadeias montanhosas, está a 1.300 metros de altitude e abriga as nascentes do rio Decontas, que deságua no litoral baiano em Itacaré.



Essa região atrai trilheiros experientes devido ao isolamento e aos percursos longos, que podem durar horas ou dias sem contato com outras pessoas. O trajeto até Catolés, por exemplo, leva cerca de 12 horas de caminhada. O vilarejo, fundado no século XVIII, mantém tradições simples e oferece hospedagem familiar. Entre seus atrativos está a igreja de Nossa Senhora do Bom Sucesso, de 1775.



A partir de Catolés inicia-se a trilha para a Serra do Barbado, onde se localiza o ponto mais alto do Nordeste brasileiro: o Pico do Barbado, com 2.033 metros. A área é protegida por uma APA que abrange 63 mil hectares, funcionando como zona de transição entre a Caatinga, o Cerrado e a Mata Atlântica. A fauna local inclui primatas, tamanduás e raposas.



Mais adiante encontra-se o Açude Brumado, usado para irrigação agrícola e responsável por revitalizar a histórica cidade de Rio de Contas. Fundada em 1745 com apoio da coroa portuguesa, foi planejada com ruas geométricas, praças amplas e edifícios barrocos. Considerada um dos principais patrimônios coloniais da Bahia, possui mais de 400 casarões tombados e igrejas importantes, como as matrizes do Santíssimo Sacramento e de Santana. A cidade também serviu de cenário para o filme “Abril Despedaçado”, de Walter Salles.



Desde os tempos dos povos indígenas maracás e do ciclo do diamante, a Chapada se reinventa e permanece como um dos maiores paraísos naturais do Brasil. Seu patrimônio ambiental, repleto de paisagens exuberantes, faz dela um destino de descobertas contínuas e experiências inesquecíveis.