A rota dos vinhos nas terras planas do Rio Grande do Sul



No Rio Grande do Sul, predominam áreas de relevo plano, com exceção da região montanhosa localizada no nordeste do estado. Nessa área, conhecida como Serra Gaúcha, elevações que chegam a 1.300 metros abrigam municípios formados a partir do final do século XIX por imigrantes europeus, especialmente italianos vindos do Vêneto. Cidades como Bento Gonçalves e Garibaldi integram a chamada “Pequena Itália” brasileira, região que se consolidou como o principal polo nacional de produção de vinhos.



O percurso tem início em Veranópolis, município reconhecido pela elevada expectativa de vida de sua população, superior à média nacional. A forte influência italiana manifesta-se, entre outros aspectos, na tradição católica. A cidade abriga o maior seminário da América Latina, inaugurado em 1904, que atualmente também sedia instituições educacionais e culturais. Destaca-se ainda a Igreja Matriz São Luís Gonzaga, cuja construção foi concluída em 1933 após mais de duas décadas de работы, superando dificuldades financeiras que marcaram o projeto.



Em Veranópolis localiza-se também o Estádio Antônio Davi Farina, onde atua o Veranópolis Esporte Clube. Entre 1997 e 1998, a equipe foi comandada por Tite, posteriormente treinador da seleção brasileira. O roteiro segue para Cotiporã, situada a cerca de 160 quilômetros de Porto Alegre. Originalmente chamada Monte Veneto, a cidade teve o nome alterado durante a Segunda Guerra Mundial, período em que manifestações ligadas à cultura italiana foram reprimidas no Brasil.



As paisagens de Cotiporã estão entre as mais expressivas da Serra Gaúcha. A Cascata dos Marins destaca-se por suas quedas d’água que somam cerca de 140 metros. Suas águas deságuam no Rio das Antas, curso marcado por curvas e corredeiras que favorecem a prática de esportes de aventura, como a canoagem. O relevo acidentado também possibilitou a instalação de usinas hidrelétricas, como a Castro Alves e a Monte Claro, esta última com reservatório de pequena extensão, reduzindo impactos ambientais. Uma antiga ponte ferroviária, com quase nove décadas de existência, atravessa o rio e remete a episódios históricos como a Revolução de 1930.



Em Bento Gonçalves, município mais populoso da região visitada, a herança italiana convive com a memória dos povos originários, como os caingangues, que habitavam a área antes da colonização. Conhecida como capital nacional do vinho, a cidade abriga vinícolas centenárias e beneficia-se de condições de solo e clima favoráveis, especialmente à produção de espumantes reconhecidos internacionalmente. O relevo montanhoso também impulsiona o turismo de aventura, com atividades como rapel, tirolesa e escalada.



O município conta ainda com instituições de ensino superior, como a Universidade de Caxias do Sul e o Instituto Federal do Rio Grande do Sul. Entre seus marcos arquitetônicos estão a Igreja Matriz Cristo Rei, de estilo Gótico Moderno, o Santuário Santo Antônio, datado de 1894, e a Igreja São Bento, cujo formato remete a um barril, em referência à tradição vinícola. Espaços culturais como a Casa das Artes e o Museu do Imigrante preservam e divulgam a história da colonização italiana.



O Vale dos Vinhedos, localizado a oeste da cidade, reúne extensas áreas de cultivo de uvas e concentra vinhos certificados com selo de indicação de procedência e denominação de origem, reconhecimento que atesta sua qualidade. Em Garibaldi, considerada a capital brasileira do espumante e batizada em homenagem a Giuseppe Garibaldi, realiza-se anualmente a Festa Nacional do Espumante. A cidade preserva construções históricas, museus e uma linha férrea turística operada por locomotiva a vapor, além de abrigar a fábrica responsável pelo primeiro espumante produzido no Brasil, fundada em 1913.



O roteiro encerra-se em Carlos Barbosa, município com elevado Índice de Desenvolvimento Humano e forte presença industrial, destacando-se no setor de utensílios domésticos em aço inoxidável. A cidade investe em infraestrutura urbana e esportiva, sendo sede de equipe de futsal tricampeã mundial. Em toda a Serra Gaúcha, a herança dos imigrantes do Vêneto permanece viva nas paisagens cultivadas, na arquitetura, na religiosidade e, sobretudo, na tradição vitivinícola que moldou a identidade regional.