No século XVIII, tropeiros passaram a percorrer a faixa central do Paraná conduzindo gado do Rio Grande do Sul para os mercados de São Paulo e Minas Gerais. O trajeto foi escolhido pelas condições naturais favoráveis, como relevo suave, abundância de água e campos com vegetação rasteira. Desde então, a região ficou conhecida como Campos Gerais. Seu limite leste é marcado pela Escarpa Devoniana, formação geológica que abriga cachoeiras e o impressionante Cânion do Guartelá, um dos maiores do mundo em extensão.
A principal bacia hidrográfica da região é a do Rio Tibagi, que nasce na Serra das Almas e percorre cerca de 550 quilômetros até desaguar no Paranapanema. O nome, de origem tupi, significa “rio de muitas cachoeiras”, característica confirmada por suas inúmeras quedas d’água e corredeiras. Em seu curso encontra-se a reserva indígena Apucaraninha, onde vivem aproximadamente 1.200 integrantes da etnia caingangue. Nessa área localiza-se o Salto do Apucaraninha, com 116 metros de altura, cuja visitação depende de autorização da FUNAI.
O potencial energético do Tibagi favoreceu a instalação de usinas hidrelétricas, como a Mauá e a Presidente Vargas, situadas no município de Telêmaco Borba. A cidade desenvolveu-se a partir da indústria de papel e celulose, impulsionada pelo cultivo de eucalipto. Atualmente, constitui o principal polo madeireiro do estado, concentrando dezenas de fábricas e uma das maiores indústrias papeleiras da América Latina. Além da atividade industrial, o município mantém áreas de preservação ambiental e parques urbanos voltados ao lazer e à educação ambiental.
Fundada em 1947 por iniciativa do empresário Horácio Klabin, Telêmaco Borba consolidou-se como centro urbano com mais de 70 mil habitantes. Entre seus espaços públicos destacam-se a praça que homenageia o fundador, a Igreja Matriz Nossa Senhora de Fátima, de arquitetura moderna, e áreas culturais e esportivas que reforçam a infraestrutura da cidade. Nos arredores, o território alterna plantações de eucalipto e remanescentes de vegetação nativa.
Seguindo pelo interior dos Campos Gerais, chega-se ao município de Tibagi, um dos mais antigos da região. Com cerca de 17 mil habitantes, a cidade preserva patrimônio histórico representado por praças, igrejas e casarões do início do século XX. Entre os destaques estão a Igreja Nossa Senhora dos Remédios, o Palácio do Diamante e a tradicional escadaria conhecida como Ladeira do Paredão. O município também abriga o Autódromo do Lago, voltado a competições em pista de terra.
A aproximadamente 20 quilômetros do centro de Tibagi encontra-se o Parque Estadual do Guartelá, criado em 1992 para proteger ecossistemas típicos dos Campos Gerais. A unidade de conservação abriga espécies vegetais como ipês, araucárias e carobas, além de animais como lobo-guará, jaguatirica e urubu-rei. O parque também preserva sítios arqueológicos com pinturas rupestres de cerca de sete mil anos, acessíveis por trilhas monitoradas.
O rio Iapó, que atravessa o parque, é responsável pela formação do Cânion do Guartelá ao cortar a Escarpa Devoniana. Com cerca de 30 quilômetros de extensão e paredões que chegam a 450 metros de profundidade, o cânion destaca-se por manter vegetação nativa ao longo de suas encostas. Cachoeiras e mirantes completam o cenário, tornando-o uma das paisagens mais expressivas do estado.
Ao sul do município, as áreas naturais dão lugar a extensas plantações, especialmente de trigo. A produção agrícola foi fortalecida pela chegada de imigrantes holandeses na década de 1970. Ao longo de três séculos, os Campos Gerais passaram por profundas transformações econômicas e sociais, combinando tradição tropeira, desenvolvimento industrial e preservação ambiental. Nesse contexto, o Cânion do Guartelá permanece como símbolo maior da força e da permanência da natureza na região.
