A bacia do Rio São Francisco é dividida em quatro trechos: alto, médio, submédio e baixo. O submédio abrange a área entre os municípios de Remanso e Paulo Afonso, na Bahia, e parte de Pernambuco. É nessa região que se inicia a jornada descrita, com destaque para o Parque Nacional da Serra do Catimbau, antigo Vale do Catimbau. Criado em 2002 e localizado a cerca de 300 quilômetros de Recife, o parque possui mais de 62 mil hectares e preserva uma das mais importantes áreas de Caatinga entre o Agreste e o Sertão pernambucano.
O Parque do Catimbau se caracteriza por montanhas de topo suave, vales abertos e paredões abruptos, resultado de intensos processos de erosão ao longo de milhões de anos. Suas formações rochosas de arenito apresentam diversas cores e formas curiosas, muitas delas batizadas pela população local. Além da beleza cênica, o parque é um importante sítio arqueológico, com cerca de 30 áreas identificadas, mais de duas mil cavernas e registros de ocupação humana com até cinco mil anos, incluindo pinturas rupestres e artefatos pré-históricos.
A região também se destaca pela biodiversidade. Mais de 150 espécies de aves típicas da Caatinga vivem no Catimbau, algumas ameaçadas de extinção. O clima é semiárido, com temperaturas médias em torno de 23 graus e chuvas concentradas entre março e julho. As atividades turísticas, como trilhas, escaladas, rapel e tirolesa, são permitidas apenas com guias autorizados, garantindo a preservação ambiental. A partir desse cenário, a viagem segue rio acima em direção às cidades de Juazeiro e Petrolina.
Visto do alto, o Rio São Francisco assume dimensões que lembram o mar, contrastando com a paisagem seca da Caatinga ao redor. Apesar da aparência árida, esse bioma exclusivamente brasileiro é extremamente diverso e abriga diferentes tipos de paisagens. Durante o período seco, a vegetação perde as folhas e adquire coloração clara, origem do nome “Caatinga”, que significa “mata branca”. Em meio à aridez, surgem áreas úmidas conhecidas como brejos, com solos férteis que permitem intensa produção agrícola.
O desenvolvimento agrícola do submédio São Francisco se intensificou especialmente entre Juazeiro e Petrolina. A viticultura foi introduzida na região na década de 1950, e a produção de vinhos teve início nos anos 1980, com a chegada de videiras europeias. Atualmente, o Vale do São Francisco é a segunda maior região produtora de vinhos do Brasil, responsável por cerca de 15% do mercado nacional, gerando milhares de empregos e produzindo milhões de litros por ano graças ao uso de irrigação e ao clima favorável.
Um dos principais responsáveis por essa transformação foi o Projeto de Irrigação Senador Nilo Coelho, iniciado na década de 1980. Com dezenas de milhares de hectares irrigados, o projeto beneficiou milhares de famílias e transformou áreas antes improdutivas em polos agrícolas conhecidos como “Oásis do Sertão”. A produção de frutas, especialmente manga e uva, abastece o mercado interno e é exportada para diversos países, consolidando a importância econômica do rio.
As cidades de Petrolina, em Pernambuco, e Juazeiro, na Bahia, separadas apenas pelo Rio São Francisco, simbolizam esse desenvolvimento integrado. Ligadas pela Ponte Presidente Dutra, ambas possuem forte identidade cultural, patrimônio histórico e intensa vida urbana. Igrejas centenárias, praças, orlas fluviais e símbolos do imaginário popular, como o Negro d’Água, reforçam a ligação histórica dessas cidades com o rio.
A viagem pelo submédio São Francisco segue até Sobradinho, onde está um dos maiores reservatórios artificiais do mundo. Construída na década de 1970, a barragem é fundamental para a geração de energia, o controle das cheias e o funcionamento das demais usinas do rio.
Apesar dos impactos sociais causados pelo deslocamento de milhares de famílias, Sobradinho consolidou o papel do Velho Chico como eixo de integração, garantindo energia, irrigação e desenvolvimento. Mesmo em períodos de seca severa, o Rio São Francisco permanece como um dos principais sustentáculos da vida e da economia no Nordeste brasileiro.
